Continuando o post anterior sobre os transportes aqui no Rio de Janeiro, estava falando como é viajar de trem para o trabalho.
Este trem já vem de muito longe (Japeri), e eu pego já na metade do caminho, portanto a composição já vem superlotada, e a primeira coisa que se percebe ao entrar, é o forte cheiro de ovo cozido, além disso essas pessoas não tomam banho, e não se importam em usar roupas sujas.
Os passageiros em grande maioria são pessoas muito humildes, os homens normalmente trabalham na construção civil e as mulheres são empregadas domésticas, eles tem uma espécie de comunicação secreta entre eles, é uma comunicação baseada em cheiros, pois você percebe um cheiro vindo da esquerda para direita e depois sente o mesmo cheiro vindo na direção contrária, e sempre o mesmo tipo de cheiro, que é de feijão ou amendoin queimado.
O mais curioso são as conversas entre eles, são sempre conversas baseados em crimes, drogas, futebol e falar mal do patrão. Eu me lembro de varias conversas entre eles, vou contar algumas:
- Dois caras estavam conversando e um dele estava perguntando por um terceiro que estava ausente, o outro disse que o fulano de tal era trabalhador de 3 dias, e que estava bem de vida, pois ganhava 50 reais por jornada, e só queria saber de praia, mulher e cerveja (AMBV4). Eu não pude deixar de ouvir isso e fiz alguns cálculos: 3 vezes 50 reais é igual a 150 reais por semana, vezes 4 semanas é igual a 600 reais mensais. Tudo bem eles podem até se contentar com isso, agora depois não vem reclamar do governo.
- Outra conversa que escutei foi sobre uma mulher cujo o marido (um daqueles caras que ficam pendurados na porta) tinha caído do trem e morrido, ela recebeu uma indenização de 100 mil reais, sabe o que ela fez com o dinheiro? Torrou tudo com homens e cerveja (AMBV4), agora ela esta na merda de novo....e foda-se pra ela.
- Um ultimo exemplo de conversa foi que um cara estava se lamentando, porque quando ficou desempregado e recebeu 6 meses de auxilio desemprego, sabe o que ele fez com o dinheiro? A mesma coisa, torrou com mulheres e cerveja (AMBV4) e disse que agora estava arrependido, pois poderia ter usado o dinheiro para terminar o seu barraco, agora estava duro e com o barraco incompleto.
E na volta para a casa é a mesma coisa, somados ainda aos vendedores de cerveja (AMBV4) que passam sempre suados e sujos entre os passageiros com suas enormes caixas de isopor, e ninguém pode reclamar, pois se reclamar os caras dizem que poderiam estar roubando e que se tivessem lá fora dariam um tiro na cabeça do cara que reclamou.
Todos vêem pelas TV’s os trens que quebram toda hora, mas ninguém fala que grande parte das quebras são devido a sabotagens dos próprios passageiros, eles gostam de abrir as portas a força, acionam os freios de emergência para travar os trens e roubam os cabos de controle para vender o cobre. É uma ignorância total, aliás é a mesma ignorância e falta de educação que faz com que mulheres grávidas e com crianças de colo fiquem em pé, enquanto que os homens ficam sentados fingindos que estão dormindo para não cederem o seu lugar.
A composição é dividida em vários vagões e geralmente o primeiro vagão e dos maconheiros e malandros, o segundo são das mulheres que por lei os homens não deveria entrar, mas entram assim mesmo, e se esfregam nas estudantes e se masturbam na frente delas, o terceiro é o vagão dos evangélicos, pois todos os dias tem pregação, é uma agonia, e sem falar dos vendedores, que vendem todos os tipos de tralhas que se pode imaginar.
Somados a tudo isso temos também os sons do ambiente regados a música funk ou gospel a todo o volume, pois eles ignoram a existência dos fones de ouvidos. E quando é sexta feira tem sempre samba em alguns vagões, e ninguém pode reclamar.
Enfim isso é o trem no Rio de Janeiro, eles reclamam de que os trens estão velhos, mas para o povinho que usa, este transporte está é bom demais. Esta ao nível do povo que o usa. E eu quando chego na minha estação dou graças aos Deuses por ter chegado, e o trem continua a sua viagem até Japeri - A porta de entrada do Inferno.












